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sábado, 14 de janeiro de 2012

"Geração de atores garante futuro do cinema brasileiro", por Ricardo Calil

Texto escrito por Ricardo Calil e publicado no blog Olha Só do portal iG em 11/11/2011:

Algum tempo atrás, Selton Mello deu uma entrevista para o Canal Brasil dizendo algo como: “No futuro, as pessoas vão se dar conta de que o cinema brasileiro do começo dos anos 2000 foi marcado por uma geração de jovens atores”. Não lembro exatamente que nomes ele citou, mas certamente Wagner Moura, Lázaro Ramos, Matheus Nachtergaele, Caio Blat, Daniel de Oliveira e o próprio Selton deveriam estar entre eles.



A frase me voltou à cabeça ao assistir à impecável performance de Lázaro em “Amanhã Nunca Mais”, que chega aos cinemas nesta sexta-feira. Seria apenas a temporã e competente estreia em longa-metragem de Tadeu Jungle, que renovou a linguagem da TV brasileira nos anos 80, mas a interpretação de Lázaro leva o filme a outro patamar. Ele torna crível não apenas seu personagem – um anestesista incapaz de dizer não, vivendo um dia de pesadelo urbano em São Paulo –, mas tudo que ele toca.

Se olharmos para trás, veremos que vários outros filmes brasileiros recentes foram ou salvos da mediocridade ou tiveram um salto de qualidade graças ao trabalho desses atores. O que seria dos dois “Tropas de Elite”, de “VIPs”, de “O Homem do Futuro” sem Wagner Moura? De “Bróder” sem Caio Blat? De “Jean Charles” sem Selton? E assim por diante. Suas atuações são, sem exceção, superiores ao próprio filme. De certa forma, eles são co-autores dessas obras.

No cinema argentino, há um rosto oficial: Ricardo Darín. No brasileiro, há cinco ou seis. Eles deram a cara do cinema brasileiro pós-retomada, mais do qualquer diretor, talvez até mais do que qualquer temática (globochanchada, filme de favela) ou qualquer estética (televisiva, publicitária).

E ainda há uma série de atores e atrizes que pode se juntar a esse grupo quando tiver mais papeis de protagonista – de Irandhir Santos a Cauã Raymond, de Leandra Leal a Hermilla Guedes –, todos muito jovens. Além dos muitos diretores estreantes que chegaram à tela nestes últimos dois anos, essa geração de atores é uma promessa muito concreta de futuro para o cinema brasileiro.




Ricardo Calil
jornalista, documentarista e crítico de cinema da Folha de S. Paulo e do blog Olha Só do portal iG.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

"A globochanchada equivale a um passeio no shopping", por Ricardo Calil

Texto escrito por Ricardo Calil e publicado no blog Olha Só do portal iG em 14/07/2011:


Existem equivalências entre experiências urbanísticas e experiências cinematográfica? Há filmes que remetam, por exemplo, a um passeio de bicicleta no parque ou a uma caminhada por uma rua deserta?

Desconfio que sim, que existem comparações possíveis. Porque sempre que vejo uma dessas comédias de situação brasileiras recentes eu me sinto em um shopping center ou em condomínio fechado. Eu me refiro aos filmes que o cineasta Guilherme de Almeida Prado bem definiu como globochanchadas: “Se eu fosse você”, “De pernas para o ar”, “Divã”, “Qualquer gato vira-lata”, “Muita calma nessa hora”, “A mulher invisível” e agora “Cilada.com”.

O shopping e o condomínio são lugares fechados que emulam outros abertos, respectivamente uma rua de comércio ou uma vila. Mas que oferecem a comodidade e a artificialidade do ambiente controlado, planejado, protegido do caos do resto da cidade.
As globochanchadas também emulam a vida real, mas não se deixam contaminar por ela. E eu me refiro ao aspecto audiovisual mesmo desses filmes: eles parecem filmados em ambientes assépticos, esterilizados, herméticos. Até as externas ter um shopping como locação.

A julgar pelo sucesso nas bilheterias desses filmes (o de “Cilada.com” é o exemplo mais recente), boa parte do público de cinema brasileiro quer mesmo essa sensação de segurança, de conforto trazido por esses filmes – assim como muitas pessoas sonham em um dia morar num condomínio fechado.

Mas ainda existem cineastas e espectadores que gostam de dar umas voltas por becos e vielas. Nem tudo está perdido, para nossas cidades e nosso cinema.



Ricardo Calil
jornalista, documentarista e crítico de cinema da Folha de S. Paulo e do blog Olha Só do portal iG.