quarta-feira, 22 de julho de 2026

Tudo sobre minha mãe (1954-2001)

O texto do mês não é sobre cinema ou algo relacionado a cultura pop, mas sobre vida e morte. Trata-se do luto e de uma etapa sensível da vida em que você ultrapassa os anos em que viveu como filha e se torna mais velha que sua mãe. 


Meu pai Antonio e Minha mãe Maria de Fátima


Tudo sobre minha mãe pede licença ao título do filme de 1999 do cineasta espanhol Almodóvar para tratar da reflexão que tiro do fato que nesta semana completo 47 anos e, fico mais velha que minha mãe que morreu aos 46 anos em 2001. 

No filme a protagonista é uma mãe perde o filho, enquanto na minha realidade aqui eu falo como uma filha que perdeu sua mãe aos 21 anos e hoje chega aos 47 anos com a mesma saudade do dia que nos despedimos. Faço tardiamente desta publicação um obituário sobre a memória de minha mãe Maria.

A saudade nascida de um luto não tem fim, mas quando você alcança uma idade onde você passou mais tempo da sua vida vivendo sem aquela pessoa que já se foi, a dor é maior. 


Eu vivi 22 anos com ela, e 25 anos sem a presença física. 22 anos de memória, rotina, no mesmo teto, mas o mais surreal é a ausência, a falta te faz pensar naquela pessoa todos os dias.   


TRAJETÓRIA

Minha mãe se chamava Maria de Fátima. Filha de Seu Gabriel Alcântara Gouvêa e de Maria José Moura. Minha mãe teve três irmãos homens (Francisco, Donizete e Luís) e duas irmãs mulheres (Geralda e Regina). 


Meus pais se casaram em 1977 em Taubaté com direito a lua de mel em Ubatuba, litoral de São Paulo. Minha mãe tinha 23 anos e meu pai apenas 19 anos. Depois de um ano nascia meu irmão Marco Aurélio, que faleceu depois de alguns dias de vida. Quando nasci meu avô materno já tinha morrido e minha avó morreu depois que completei um ano de vida (1980). Eu fui a segunda filha, nasci em 1979 e depois de um ano, mamãe perdia mais um filho que nem teve o nome registrado infelizmente. Em 1981 nascia meu irmão Antônio, hoje com 44 anos e em 1984 nascia a caçula Juliana, hoje com 41 anos. 


Mamãe faleceu em 2001, um mês antes de completar 47 anos. Tínhamos acabado de nos mudar para a nossa casa própria. Eu tinha conseguido trabalho em uma fábrica e meus irmãos mais novos estavam se formando no ensino médio. Estávamos crescidos e criados. Mamãe estava realizada e continuava na ativa, trabalhando e vivendo sempre com muita humildade e simplicidade. Sempre querida por todos, sua partida marcou familiares, amigos e colegas de trabalho. E fez seus 3 filhos amadurecerem, nos tornamos novas pessoas, ganhamos uma nova casca.


Não sei tudo sobre minha mãe, mas sei daquilo que vivi com ela e por isso fica a nostalgia da saudade por conversas que sempre tivemos e por experiências e risadas que não vivemos mais depois de sua partida. Porém acredito que uma parte dela esteja comigo no dia a dia, num raio de sol, ou no vento que balança as folhas de uma árvore ou ainda quando lembro da risada e da voz dela - que cada dia mais se confunde com a minha.


HOJE

Em 2017 nascia nossa sobrinha Júlia, filha da minha irmã Juliana. Júlia é a única neta de meus pais. A chegada de um novo membro depois de 16 anos trouxe um sentimento de esperança, ora antes adormecido. 

Hoje Somos então 5 de novo 💛


Ana Paula Alcântara, 2026